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Carlos Sider é engenheiro químico e administrador de empresas. Tem atuado por muitos anos como executivo contratado por empresas como Bunge, Rhodia, Tintas Coral, Eternit, no Brasil e no exterior, e nos últimos 9 anos como principal executivo. Atualmente é o CEO da Konzept para a América Latina.

  


Captação de Recursos - Alguém consegue algo em algum lugar?
Transparência administrativa, relatórios claros e profissionais (esqueça as prestações de contas que algum missionário disse como fazer), isenção plena na conduta. São todos fatores que deveriam ser mínimos para quem se candidata a captar recursos com quem quer que seja. E não fiquemos apenas nos relatórios financeiros e administrativos. Se você prometeu resultados, prove que você os alcançou. Você pegou dinheiro para distribuir “N” cestas básicas? Prove que distribuiu, de preferencia até com algum tipo de auditoria. Você pretendia alcançar “X” crianças com seu projeto? Prove que você o fez. Resultados. Mostre os resultados. Ninguém quer saber que você se esforçou. O dinheiro não lhe foi dado por seus esforços, e sim para que, por meio dele e por meio dos seus esforços, os resultados chegassem


Recentemente eu estive em um congresso de líderes cristãos, onde um dos preletores foi falar justamente sobre isso. E ele logo começou fazendo piada com um dos organizadores que, numa sugestão de pauta, colocou uma pergunta: “como ter êxito na captação de recursos para o seu ministério?” Ao que inevitavelmente ele respondeu: “Ah... se eu soubesse...”

Quem sabe? Quem consegue? Dá pra captar recursos neste Brasil de hoje?

Ah, se eu soubesse... Posso responder assim?

Mas, já que eu comecei a escrever algo com este título, difícil terminar agora. Portanto, eu o convido a analisar...

... apenas alguns fatos

- o Instituto Ayrton Senna investiu 18 milhões de Reais em 2002. Foram R$ 16 milhões em 2001, quase R$ 14 milhões em 2000, R$ 11 milhões em 99;

- este investimento foi feito em instituições parceiras que viabilizam suas ações, já que o Instituto não necessariamente as executa. Ele as avalia, valida, controla;

- substancial parte destes recursos foi captada junto a empresas “aliadas”, dentre as quais Embratel, Banco do Brasil, Nokia, Ericsson, Audi, entre muitas outras;

- mais de 80% dos programas sociais, cristãos e de interesse público desenvolvidos por instituições sem fins lucrativos estão amarrados e são financiados por empresas privadas que buscam lucro;

- somente pequena parte destes investimentos é feito por programas de incentivos fiscais/tributários.

Qual a mecânica?

Não comece a buscar pelo endereço de algumas empresas e instituições acima. Elas não foram mencionadas como fontes de recurso e sim, como exemplo de que algo pode realmente ser feito.

E para saber o que pode ser feito, é necessário saber qual é a mecânica da coisa.

Não tenho a mínima pretensão de ser alguém entendido no assunto. Mas tenho sido um executivo/empresário ao longo dos últimos 20 e poucos anos, e neste tempo já fui procurado por quem queria dinheiro, já procurei os outros para conseguir dinheiro, já conseguí dinheiro para instituições e pedí dinheiro a outras empresas em nome de instituições que busquei ajudar. Dentre muitas e inevitáveis negativas ouví e presenciei uma boa porção de afirmativas.

Portanto, entenda os pontos abaixo mais como um testemunho do que uma fórmula mágica. Não existem as tais fórmulas. Por isso mesmo dou um nome pouco usual para os pontos. Começando pelo número zero:

0) Deus comprou o seu projeto?

Você tem certeza que Jesus iria junto com você buscar patrocinadores? Pode parecer uma pergunta estranha, mas a verdade é que, caso estejamos falando de projetos de cunho cristão, Deus é quem precisa mover corações. Se moveu o seu, ótimo. Mas se o projeto é Dele, Ele por certo moverá os corações dos patrocinadores e parceiros. Caso contrário você gastará muita sola sem grande retorno.

1) nem macaco põe a mão em cumbuca

Se a sua instituição, ou a instituição que você quer ajudar anda sempre às voltas com dificuldades administrativas e financeiras que se manifestam em pouca transparência administrativa, dívidas fiscais, “rolos” financeiros, etc, nem perca o seu tempo pedindo investimentos. A melhor ajuda que esta instituição precisa é de alguém que a ponha para funcionar direito.

Ah, mas é que... são as muitas dificuldades... como pagar impostos quando as nossas crianças precisam comer? Quem disse que uma instituição desse tipo precisa pagar impostos? Se precisa, não é bem uma instituição! Não, não me entenda mal... não são impostos... são as verbas previdenciárias e trabalhistas dos funcionários... Ah, só isso? Quer dizer que os administradores estão passíveis de crime de apropriação indébita? Que bom... então quer dizer que um funcionário demitido pode dizer adeus ao seu FGTS? Pergunte a opinião dele...

A verdade é que uma grande parte das instituições de caridade, de ajuda social, religiosas ou não, tem o costume de não recolher certas taxas e verbas porque afirmam, lá por trás do pano, que sua causa é maior, e que jamais alguém vai processar uma instituição assim. Pode até ser a prática corrente em muitos lugares deste Brasil de hoje, mas estas instituições tem muito poucas chances de lograr exito na captação de verbas privadas. São cumbucas fenomenais.

Dinheiro bom se nega a entrar em cumbuca.

2) o doador é sempre um “interesseiro”

Quem canaliza recursos para alguma instituição sempre o faz com algum outro interesse. E o duro é que esses interesses raríssimamente são declarados. O doador assume o discurso de benfeitor, de generoso. E de fato o é, pois poderia fazer qualquer outra coisa com o dinheiro. Mas sempre há outros interesses, que embora não declarados podem ser “descobertos” e atendidos. E me arrisco a dizer que são em geral os principais. Portanto, seu atendimento pode facilitar ou até garantir próximos investimentos.

Quais são eles? Ah... se eu soubesse...

Mas penso que existem pelo menos 4 tipos:

a)      interesses fiscais e tributários – embora as leis e portarias que permitem estas canalizações andem meio raras, elas ainda existem para projetos e áreas específicas. Se é este o caso da doação que você pretende receber, não espere que um empresário lhe diga que “só está dando o dinheiro porque é dinheiro de imposto mesmo, e vamos acabar logo com isso”. Mas já se sabe onde é necessário chegar

b)      interesses financeiros mesmo – há casos em que o doador doa para não ter que gastar mais depois. Há casos onde o doador investe para evitar “males maiores”. Longe de querer instigar alguém a gerar a ameaça para depois oferecer a solução (o que seria mais que criminoso, e facilmente desmascarável), há muitas empresas investindo em benfeitorias e ajudas sociais a bairros e regiões, pelo simples fato de que suas fábricas ficam por lá. As empresas sentem as necessidades sociais no bolso também

c)   interesses publicitários e de imagem – é muito difícil para quem está liberando dinheiro pedir algum espaço publicitário e associação da imagem da empresa com o projeto que está sendo financiado. Antes de esperar que o doador peça, ofereça. E ofereça algo que encha os olhos dele, sem que a isenção de seu projeto seja desvirtuada

d)   intereresses ideológicos mesmo – embora meio raros nos tempos bicudos que vivemos, por muitas vezes o doador compra o projeto como ninguém. Nestes casos o doador é quase que individual, ou é um empresário dono do próprio negócio. Ele passa a ser portanto o seu parceiro, como diz o próximo item.

3) você tem um sócio

Este talvez seja um mal de grande parte das instituições religiosas. Pedem dinheiro como ninguém. E mesmo que o consigam, jamais prestam contas. Nem de onde usaram o dinheiro, nem quando, nem como.

E chega a ser pior quando voltam para pedir dinheiro para os mesmos doadores e ouvem da necessidade de algum relatório. Mas que pachorra! Só porque me deu uns caraminguás no passado agora vem me pedir relatórios? Ora, que falta de confiança! Quem ele pensa que é? Ora, Deus é testemunha de como usei este dinheiro!

Deus é testemunha mesmo. De como o dinheiro foi bem ou mal usado. O doador tem o direito de saber também. Ele quer saber. Ele muitas vezes precisa saber, para prestar contas a superiores.

Transparência administrativa, relatórios claros e profissionais (esqueça as prestações de contas que algum missionário disse como fazer), isenção plena na conduta. São todos fatores que deveriam ser mínimos para quem se candidata a captar recursos com quem quer que seja. E não fiquemos apenas nos relatórios financeiros e administrativos. Se você prometeu resultados, prove que você os alcançou. Você pegou dinheiro para distribuir “N” cestas básicas? Prove que distribuiu, de preferencia até com algum tipo de auditoria. Você pretendia alcançar “X” crianças com seu projeto? Prove que você o fez. Resultados. Mostre os resultados. Ninguém quer saber que você se esforçou. O dinheiro não lhe foi dado por seus esforços, e sim para que, por meio dele e por meio dos seus esforços, os resultados chegassem.
  

4) antes tome “semancol”

É impressionante o número de espertos que saem por aí buscando recursos para obras assistênciais, ajuda social, evangelismo, fazer o bem, sei lá a quem, e o fazem só por estarem comissionados, serem contratados da instituição (direta ou indiretamente), ou terem algum interesse individual na captação do recurso. São os primeiros a não defender o projeto. Jamais colocariam dinheiro alí se o tivessem. Mas usam o “projeto” como uma desculpa para conseguir ganhar algum.

Empresários tem um faro impressionante para este tipo de gente. Acredite em mim. Eles só sobrevivem no meio em que vivem se desconfiarem de tudo. E se especializam nisso. São pagos para achar entrelinhas em contratos. Conseguem os melhores negócios quando escutam o que não foi falado, e quando enxergam o que não querem que se veja. Portanto, não os subestime. Pense que eles estão indo, e tenha a certeza de que já estão voltando.

O doador vai desconfiar de você? Vai! Conte com isso! Prepare-se para isso. Ele vai analisar seu projeto como um contrato. É o jeito dele! É a obrigação dele! Faça a sua. Mesmo que você seja um funcionário da instituição e você viva do salário que lhe é pago, faça o seu trabalho com clareza, mas antes de tudo mostre que você lhe vende o projeto que você mesmo há muito já comprou.

Por certo o mais importante...

...ainda mais para quem conhece Deus, seja saber se Deus de fato comprou o projeto. Se comprou, com certeza, sem sombra de dúvida, o recurso vem, seja por que caminho for.


 


veja ainda:

Quem sabe não foi pra isso...?
... p
or habitar e circular entre o mundo empresarial e o ministerial há 26 anos acho que já aprendí a não me assustar com as anomalias. Aprendí a ver o que há de excelente em cada lado, e fugir do que há de mau. Aprendi que Deus é Senhor de ambos, e se ficamos vez por outra surpresos com o que vemos, jamais veremos Deus surpreendido com o que há. Ele sabe, e segue no controle de tudo.
A verdade é que Deus nos coloca onde estamos com finalidades que Ele conhece há muito, e que nos revela aos poucos. Como Ester, talvez eu e você tenhamos sido plantados em terreno específico, e mesmo que não consigamos ver ‘quais podem ser as intenções de Deus’, Ele as tem, por certo.
Enfim, temos nossas lições de casa. E é justamente para uma delas que eu quero agora lhe chamar a atenção. “Quem sabe não foi pra isso que Deus lhe colocou onde colocou?”
Clique aqui para ver mais deste artigo de Carlos Sider


Implicações e desafios da Missão Integral
É lugar comum em qualquer ensaio missiológico usar o termo "missão integral", assim como se usa o termo "reino de Deus", sem maiores detalhes sobre o que realmente significa fazer missão de modo integral. O uso deste termo empresta uma áurea de seriedade ao que se escreve.
A verdade é que este tema já está desgastado e existe uma certa desilusão com o mesmo em vista das dificuldades que este modelo de missão impõe. Se de um lado vemos igrejas totalmente alheias aos postulados da MI, por outro lado vemos igrejas que gostariam de trabalhar mais estes ideais, mas encontram as mais diversas dificuldades. São dificuldades conceituais, estruturais, econômicas e ideológicas.
Clique aqui para mais sobre este texto de Antonio Carlos Barro

 

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