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Introdução
O tema
é amplo e oferece várias vertentes pelas quais podemos caminhar. Os desafios
para a Missão Integral (MI) ainda permanecem como desafios frente aos mais
diferentes contextos em que a igreja desenvolve a sua missão. Alias, podemos
até mesmo afirmar que o título "Missão Integral" continua gozando de uma
certa ambigüidade entre os evangélicos.
É lugar
comum em qualquer ensaio missiológico usar o termo "missão integral", assim
como se usa o termo "reino de Deus", sem maiores detalhes sobre o que
realmente significa fazer missão de modo integral. O uso deste termo
empresta uma áurea de seriedade ao que se escreve.
A
verdade é que este tema já está desgastado e existe uma certa desilusão com
o mesmo em vista das dificuldades que este modelo de missão impõe. Se de um
lado vemos igrejas totalmente alheias aos postulados da MI, por outro lado
vemos igrejas que gostariam de trabalhar mais estes ideais, mas encontram as
mais diversas dificuldades. São dificuldades conceituais, estruturais,
econômicas e ideológicas.
No
contexto brasileiro sua pregação é por vezes confundida com os movimentos e
partidos políticos mais radicais (PT, MST). Outras vezes a igreja rejeita
tal pregação por não ser ela atraente tendo em vista que a mesma condena e
rejeita o atual encantamento com a chamada "Teologia da Prosperidade". Num
período em que a fascinação com a riqueza e o poder grassam no meio
evangélico, é difícil encontrar pessoas entusiasmadas com as propostas da
missão integral.
Iniciaremos esta reflexão com algumas pressuposições que acredito são
básicas na proclamação do evangelho.
O povo
da missão - missio Dei. Entendemos que missão nasce no trono da graça
de Deus e não o contrário. Muitas vezes, a prática da missão nasce do desejo
da igreja, mas esta não deve ser a motivação primeira e sim a missio Dei.
O povo
peregrino - caminha em direção ao final dos tempos. Nós somos o povo entre
os "dois tempos tempos" (Costas, Cullmann). Vivemos neste mundo
enquanto que olhamos para a consumação dos tempos quando o reino será
totalmente implantado pelo Rei que virá. Duas figuras poderiam caracterizar
a igreja. Uma positivamente: A igreja simbolizada pela tenda - igreja
retirante – que move debaixo da orientação de Deus. A outra, negativamente,
simbolizada pela catedral - igreja imobilizada – que não leva em
consideração o mundo e seus problemas. É a igreja que onde tudo gira em
torno dela.
O povo servo - manifestação de Cristo ao mundo. O povo de Deus
serve no mundo à semelhança daquele que veio como doulos e
diaconos. Não existe outra maneira de viver entres os povos que não a
maneira como Cristo viveu entre nós.
O povo
libertador - em todos os níveis da sociedade. Os fardos da sociedade são
também os fardos da igreja e a opressão do povo é uma afronta contra Deus e
o seu Ungido. A justiça de Deus impartida a nós no ato da salvação é marca
característica em cada servo de Deus.
O povo
responsável - cada um participa da construção do reino com seus dons e
talentos. Este povo é amado por Deus que não faz nenhuma acepção de pessoas
e como tal, este povo valoriza os dons e talentos de cada membro do corpo de
Cristo. Cada um é responsável em trazer aquilo que tem e colocar à
disposição do Mestre.
O povo
obediente ao Espírito Santo. É no ouvir do sopro do Espírito que sopra onde
quer que a igreja caminha realizando a missão de Deus. Segundo os ensinos
das Escrituras o Espírito Santo é:
-
Originador da missão.
- Condutor da missão.
- Sustentador da missão.
O povo
da Bíblia - única regra de fé e prática. As práticas da igrejas no
desenvolvimento missionário são constantemente corrigidas pelas Escrituras.
A leitura e estudo dos livros sagrados fornecem convicção e lealdade a Deus.
I.
A Espiritualidade da Missão Integral
Poucos
são os autores que têm trabalhado o tema da espiritualidade em relação à MI,
até mesmo porque o integral com espiritual parecem não combinar. Integral
pressupõe fazer, agir, tomar um posição mais radical, enquanto que
espiritualidade está mais próximo do meditar, refletir, contemplar. Assim se
alguém é integral, não é espiritual e se alguém é espiritual, não é
integral.
No
campo da missiologia existe um debate sem fim sobre o papel da ação social
na vida da igreja. Este papel é primário ou secundário. Tem o mesmo valor da
evangelização, oração? Desde o Congresso de Lausanne os evangélicos vem
avançando mais no debate do papel da igreja na solução dos problemas da
sociedade. As vezes a MI parece ganhar algumas trincheiras (Congresso
Brasileiro em Belo Horizonte) e outras vezes parece que a mesma é vencida
como foi o caso do Congresso de Lausanne em Manila nas Filipinas. Vários
livros e artigos têm sido devotados sobre o assunto.
A
espiritualidade da MI tem que encontrar as suas raízes principalmente e
primordialmente na vida e obra de Jesus Cristo. São nas páginas do Novo
Testamento que iremos encontrar aquele que nos forneceu não somente a missão
mas também a espiritualidade da mesma. A palavra espiritualidade tanto
significa a qualidade ou o caráter de espiritual bem como a doutrina acerca
do progresso metódico na vida espiritual. A espiritualidade é qualidade
inerente na vida de Cristo. Faz parte de sua natureza ser espiritual.
Em
primeiro lugar vemos que ele tinha uma consciência muito clara a respeito da
sua origem. Ele afirma por várias vezes ter sido enviado por Deus. A este
Deus ele o chama de Pai. No Evangelho de João encontramos as seguintes
declaração.
O
Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim. Jamais
tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma
(Jo 5.37).
Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio
nome, certamente, o recebereis
(Jo 5.43).
Ninguém
pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei
no último dia (Jo 6.44 - ver ainda 6.46, 57; 8.18; 10.36; 12.49 e
16.28)
Em segundo lugar vemos que Jesus não dicotomizava a sua espiritualidade como
nós fazemos hoje. Ele orava sozinho (Mt 14.23; 26.44; Lc 9.28), orava em
público (Lc 11.1-2), conhecia as Escrituras (Lc 4.20-21), realizava
milagres, pregava o evangelho do reino, libertava os oprimidos do diabo. A
sua espiritualidade era o conjunto de tudo aquilo que fazia para glorificar
o seu Pai.
Podemos
ver em terceiro lugar que a espiritualidade de Jesus refletia os dez
mandamentos dados ao povo de Deus no Êxodo. É um espiritualidade que possui
uma dimensão vertical (amar a Deus) e possui ainda uma dimensão horizontal
(amar o próximo). Jesus mostrou com a sua vida que ele amava a Deus e deste
amor a Deus ela extraia a força para amar ao seu próximo e com certeza
podemos afirmar que ninguém amou tanto a Deus como ele e ninguém amou tanto
ao próximo como ele amou. Vejamos alguns exemplos desta espiritualidade.
O
Sermão do Monte
Um dos
textos que podem ser explorados para o desenvolvimento de uma
espiritualidade para a MI é o rico discurso de Jesus Cristo no Sermão do
Monte. Este discurso tem início com as bem-aventuranças e elas devem servem
de fundamento para a MI. Devemos notar que as bem-aventuranças são bem mais
do que um simples código de ética para o povo de Deus. Elas, na verdade,
formam a receita de Jesus para alguém alcançar o verdadeiro sentido para a
vida. Na medida em que a igreja ou alguém pratica a espiritualidade das
bem-aventuranças, esta igreja ou pessoa está sendo feliz. Podemos notar que
cada uma das bem-aventuranças está intimamente ligada com a vida do outro.
Alguém é feliz quando participa ativamente na vida do outro. É, pois,
através desta participação que exige humildade, choro, mansidão, busca da
justiça que o modelo de Cristo para uma nova vida é exemplificado para o
mundo.
Neste
Sermão do Monte muitas das nossas relações são delineadas por Jesus. No
capítulo cinco vemos o relacionamento e o comportamento do cristão em
relação ao mundo (sal e luz). O testemunho frente ao sistema religioso
vigente. O relacionamento com os outros cristãos, com a família, com Deus,
com os inimigos. No capítulo seis ele mostra a prática da espiritualidade
quando fala sobre a justiça, oração, jejum, acúmulo de bens, serviço cristão
e ansiedade. No capítulo sete ele mostra que esta não é uma espiritualidade
ingênua. Ela é sabedora do juízo de Deus, por isso, o cuidado quando julgar
alguém. Ela é impregnada com o conceito da mordomia, adverte contra o perigo
da religião atrativa mas destituída de valores e adverte ainda dos falsos
arautos. Este discurso termina com uma nota interessante. É a prática dos
ensinamentos de Cristo que irá demonstrar a espiritualidade de alguém e não
o discurso ou a aparência de santidade. Podemos afirmar, então, que o
verdadeiro cristão é aquele que faz, aquele que age fundamento nas palavras
de Cristo.
Dependência do Espírito Santo
A
espiritualidade de Jesus era também profundamente dependente do Espírito
Santo. O Evangelista Lucas nos informa que no início do ministério o próprio
Cristo afirmou: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu
para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos
e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e
apregoar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19). Tempos mais tarde o
Apóstolo Pedro em sua pregação na casa de Cornélio, dando testemunho sobre o
ministério de Cristo, afirma: Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos
de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo.
Este é o Senhor de todos. Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a
Judéia, tendo começado desde a Galiléia, depois do batismo que João pregou,
como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual
andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo,
porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na
terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o
no madeiro (At 10.36-39).
Dependência de Deus
Vemos
ainda que a espiritualidade de Cristo era baseada em um profundo
relacionamento com Deus. Ele, desde o início de seu ministério recebeu de
Deus palavras de amor: "Então, foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu
Filho amado, em ti me comprazo" (Mc 1.11). A partir deste momento, a
trajetória do seu ministério apontará esta dependência do Pai. Nas mais
diversas situações encontramos Jesus procurando a vontade de Deus.
E,
despedidas as multidões, subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a
tarde, lá estava ele, só
(Mt 14.23).
De uma feita, estava Jesus orando em certo lugar; quando terminou, um dos
seus discípulos lhe pediu: Senhor, ensina-nos a orar como também João
ensinou aos seus discípulos (Lc
11.1).
E
aconteceu que, ao ser todo o povo batizado, também o foi Jesus; e, estando
ele a orar, o céu se abriu
(Lc 3.21).
Em seguida, foi Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse a seus
discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar.
(Mt 26:36).
É importante notar que na espiritualidade de Jesus ele mostra esta
dependência até o último limite: a morte na cruz. Isto nos faz apontar para
um outro detalhe na sua vida espiritual: o sofrimento. Para Cristo, não
existe espiritualidade que não venha acompanhada do sofrimento, do martírio,
da dor. O seu ministério tem início com o sofrimento das tentações no
deserto impostas por Satanás. Este sofrimento o acompanha na marcha ao
Calvário onde ele sofre todo o escárnio e crueldade impostas por um povo
ignorante e um governo cruel.
Assim
sendo, quando buscamos uma espiritualidade para MI da igreja, temos que
voltar os nossos olhos para Jesus e ver nele o modelo que precisamos para o
desenvolvimento da nossa própria espiritualidade. O desenvolvimento da mesma
deverá nos conduzir ao coração da MI.
II.
As Exigências da Missão Integral
Implantar um modelo de Missão Integral não é uma tarefa muito fácil. Nunca
foi e nunca será. A igreja é por vezes muito comprometida com o sistema
vigente e as estruturas deste sistema são violentas. São estruturas que
esmagam e muitas vezes matam no nascedouro a tentativa de viver o evangelho
de maneira integral. Vejamos algumas das exigências da Missão Integral:
Um
profundo conhecimento da missão de Cristo.
A
tendência da igreja de hoje em apresentar Jesus Cristo como tão somente
aquela pessoa que quer fazer o bem a todos, curar as enfermidades e passar
um óleo nas feridas do coração. Esta apresentação tem produzido uma
caricatura do Cristo revelado nas Escrituras. Muitas e muitas vezes tem se a
nítida impressão de que o Cristo das pregações de hoje não é a mesma pessoa
descrita nos Evangelhos tamanha é a disparidade entre eles. O Cristo do Novo
Testamento é radical, tem estilo de vida simples, não cede às pressões de
grupo, associa-se com pessoas que não são de bem, conversa com quem não
deveria conversar, faz perguntas incômodas, desafia os poderosos da religião
e do estado.
Quando
o evangelista Marcos apresenta Jesus, ele o aponta como o homem que vem de
Nazaré da Galiléia (1.11). Nazaré era tão insignificante que não aparece
citada no Antigo Testamento. As pessoas desta região eram inclusive
ridicularizadas: "Perguntou-lhe Natanael: de Nazaré pode sair alguma
coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê" (João 1.46). Mas, ele não
somente é de Nazaré, como também é da Galiléia cujos habitantes eram
considerados como ignorantes pelos sábios de Jerusalém. Esta região habitada
por pessoas que se misturaram em seus relacionamentos não recebia por parte
dos judeus nenhum estima.
Existe
alguma significado nos dias atuais que Jesus veio de Nazaré da Galiléia? As
vezes nem nos lembramos deste detalhe. O Cristo de hoje é apresentado tão
somente como aquela pessoa que pode fazer alguém prosperar ou alcançar uma
bênção. Dá-se a impressão que este Jesus que está sendo anunciado veio de
Londres, Paris, Tóquio ou Nova Iorque. É um Jesus que usa roupas da moda, as
melhores grifes e freqüenta os melhores restaurantes de São
Paulo e
Rio de Janeiro. Poucas coisas do cristianismo atual recordam aquele homem
simples das estradas empoeiradas da Palestina.
Compreensivelmente, a mensagem de hoje não destaca algumas das coisas que
Jesus veio fazer ao mundo. Elas são deixadas de lado e assim vamos moldando
um outro Jesus que não aquele revelado nas Escrituras. Leia os textos abaixo
e selecione algumas características de Cristo que você não tem visto nas
pregações de hoje.
Não
penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada
(Mt 10.34).
Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e
entre a nora e sua sogra
(Mt 10.35).
Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e
sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores
(Mc 2.17).
Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento (Lc 5.32).
Eu
vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisera que já estivesse a arder
(Lc 12.49).
Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo afirmo; antes, divisão
(Lc 12.51).
Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não
vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos
(Jo 9.39).
O
ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham
vida e a tenham em abundância
(Jo 10.10).
Eu vim como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que crê em mim não
permaneça nas trevas
(Jo 12.46).
Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido
(Lc 19.10).
Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e
dar a sua vida em resgate por muitos
(Mc 10.45).
Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e
dar a sua vida em resgate por muitos
(Mt 20.28).
Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando
desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as
obras do diabo
(1 Jo 3.8).
Este é o Cristo com a verdadeira mensagem. Fiel ao Pai ele não
omitiu as verdades mais difíceis de serem assimiladas. Por isso, seria de
bom alvitre que a igreja e seus pastores fizessem um releitura dos
Evangelhos e pedir perdão a Deus pela mutilação que estão fazendo do nosso
Senhor.
Um
profundo compromisso com a missão de Cristo.
Se o
Cristo que está sendo apresentado hoje está desfigurado do Cristo das
páginas do Novo Testamento, podemos levantar então uma outra questão: Como
comprometer-se com alguém que conhecemos tão superficialmente? Como
comprometer-se com alguém que eu não sei o que fez, para que o fez e para
quem o fez. O meu compromisso com a MI advém de um conhecimento bem maior
com a vida e obra de Cristo. Ser um cristão significa embarcar em uma canoa
sem volta, remar contra a correnteza, ser uma pessoa contra-cultural. Veja
algumas coisas sobre como Jesus qualifica os seus seguidores(as).
Se
alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo.
E, se alguém me servir, o Pai o honrará
(Jo 2.26).
Se me amais, guardareis os meus mandamentos
(Jo 14.15).
Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e
aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me
manifestarei a ele
(Jo 14.21).
Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e
nele não está a verdade
(1 Jo 2.4).
Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os
seus mandamentos não são penosos
(1 Jo 5.3).
Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis
lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu
vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não
é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou.
Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes
(Jo 13.14-17).
As exigências do Evangelho demandam dos seguidores de Cristo que
eles conheçam a vida e obra do Mestre. Temos percebido que a modernidade tem
contribuído para afastar os fiéis das Escrituras. A conseqüência deste
afastamento é o analfabetismo bíblico que tem assolado as igrejas. Sabemos
que quanto mais longe estamos do evento Cristo, mas fraca é a nossa memória
quanto à sua pessoa e ministério. Faz-se necessário uma leitura constante
dos evangelhos em nossas comunidades. Esta leitura deve ser feita no
contexto em que a comunidade está inserida. Esta leitura deve produzir
mudanças na conduta da igreja.
Sendo
bem pessimista, talvez tenhamos avançado demais no nosso comprometimento com
as forças ocultas dentro do mundo eclesiástico, das igrejas locais que não
há mais retorno a nós. Nesta hora é necessário uma coragem indômita e um
total arrependimento para que possamos dizer: "Levantar-me-ei, e irei ter
com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não
sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores"
(Lc 15.18-19). Quem sabe Deus ainda possa ter misericórdia de todos nós!
Eu
penso que é quase uma ilusão nos dias de hoje pedir que os cristãos vivam as
demandas do evangelho do Senhor Jesus Cristo. A sociedade conseguiu manietar
os cristãos de tal forma que eles se vêem impotentes diante das armadilhas
impostas pelo mundo. Um cristão luta para ser promovido em seu emprego,
nesta sua luta ele não sabe, ou sabe, que naquela nova posição ele terá que
fazer alguns acordos para continuar naquele cargo. Surge então o dilema:
continuo na posição atual ou aceito aquela outra mesmo sabendo que terei de
abrir mão de alguns princípios bíblicos?
As
vezes não conseguimos enxergar que a sociedade nos odeia, como já havia nos
avisado Jesus. A sociedade desenvolveu um sistema de perseguição que tem
passado quase que imperceptível à maioria de nós. Esta perseguição se dá na
forma do oferecimento da serpente: sutil, insinuante e tentador. Não é uma
perseguição que exige o derramar do nosso sangue, mas sim a entrega da nossa
alma ao tentador. O tentador não quer o sangue dos cristãos derramado nas
arenas do mundo, pois isso poderia produzir algum tipo de reação por parte
dos mesmos, mas o que ele quer é a entrega silenciosa da alma, pouco a
pouco, até que ele tenha o total controle do cristão.
Esta
perseguição se dá através de múltiplos oferecimentos. Uma amizade com alguém
mais rico, uma ajuda de alguém no alto escalão do governo, a aceitação de um
presente da mulher do chefe, aceitar o convite para passar um fim de semana
na casa do presidente da denominação, fechar os olhos para a injustiça que
está sendo cometida com o meu chefe, porque eu sou o próximo na lista das
promoções. Aos poucos, o tentador vai silenciando as vozes dos cristãos. Ele
vai amordaçando o ministério profético da igreja como boca de Deus ao mundo.
O mundo nos odeia e nós não acreditamos que Jesus estava falando a verdade,
afinal, quando foi que alguém nos maltratou, esbofeteou por causa do
evangelho para provar o ódio do mundo? Não precisa, pois o velho tentador
encontrou uma formula mais moderna para revelar o ódio do mundo pela igreja.
Como aquele missionário ingênuo que oferecia presentes aos índios para
ganhar a simpatia dos mesmos, ele (sem nenhuma) ingenuidade oferece também
presentes aos crentes.
Os
cristãos precisam urgentemente de um arrependimento, individual e coletivo
(igreja), para voltar ao "primeiro amor" e viver as demandas do evangelho.
Para isto, seria apropriado um novo encontro com Jesus Cristo e reiniciar
com ele a jornada abandonada por causa do amor ao mundo. Pois sabemos todos
de que nada adianta ganhar o mundo, pois seria o mesmo que ganhar o
oferecimento do tentador, e finalmente perder a alma neste processo. Quem
perder a vida por amor a Cristo vai ganha-la, mas quem ganha-la amando o
mundo, vai perder a Cristo e a própria vida.
Este
processo de retorno ao lar tem início com as advertências do Apocalipse: "Quem
tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas". Ouvir a voz do
Espírito nos meio de tantas vozes que tentam nos seduzir é uma tarefa
espiritual. O verdadeiro filho(a) de Deus que está seduzindo pela serpente
sabe quando e como parar este processo de destruição na qual se encontra,
pois quem um dia conheceu e ouviu a voz do Espírito Santo saberá como
discerni-lá ainda hoje. O Apóstolo Paulo nos ensina que este processo
continua com uma nova oferta da vida a Cristo. Poderíamos chamar isto de
consagração. É a aceitação absoluta do senhorio de Jesus sobre a vida e
todas as implicações que este senhorio exigir. Por fim, o cristão
compromete-se a viver na dependência de Deus, sabendo que no Senhor ele é
amado, protegido e guardado. Deus não vai sonegar a ele bem algum
necessário. Ele não passará falta de nada conforme o Salmo 84.11. Deus e
somente Deus é a razão da nossa existência.
III. As Implicações da Missão Integral
Os
temas aqui propostos devem servir tão somente como ponto de partida para
outras reflexões. Ao refletirmos sobre as implicações da MI devemos levar em
consideração os nossos contextos: eclesiástico ou denominacional,
bíblico-teológico e finalmente o cultural.
Empatia com o Povo
Empatia
é "sentir o que se sentiria caso se estivesse na situação e
circunstâncias experimentadas por outra pessoa" (Dicionário Aurélio).
Seria como colocar-se na situação do outro e calçar os seus sapatos, pois
somente quando sabemos onde realmente o sapato aperta o nosso pé é que
teremos empatia com o outro. Muitas vezes o nosso evangelho é muito teórico,
pois temos as respostas para todas as perguntas e temos as soluções para
todos os problemas. Os pastores, principalmente, são mestres em quase todos
os assuntos da vida. Eles entendem de uma complicada doença, economia,
casamento, política, carro, casa, seguro. Sabem como resolver os problemas
da juventude e da velhice.
Devemos
reconhecer que muitas das coisas que um pastor fala e aconselha, ele o faz
sem nenhuma consideração pela pessoa à sua frente. Ele dá conselhos com a
maior naturalidade e tem a mais absoluta certeza de que se a pessoa praticar
o que ele está dizendo, todas as coisas serão solucionadas. Antes de nos
aventurarmos a resolver os problemas das pessoas nós devemos ter:
Identificação
Até
onde vai a nossa identificação? Qual é o limite da nossa inserção na vida
dos outros? Na nossa identificação com o outro estamos dispostos ao
sacrifício e até mesmo o sacrifício do tempo, dos bens, da posição, do
conforto? Creio ser muito hipócrita atender as pessoas nos gabinetes
acarpetados e não ter a mínima noção dos caminhos percorridos por alguém que
sofre e geme as ingratidões da vida. Os "conselhos" que serão oferecidos não
farão nenhum sentido para o outro.
Compaixão
Ter
compaixão significa estar próximo de alguém e fazer alguma coisa para com
aquela pessoa. A situação do outro nos comove e nos move a realizarmos
alguma. A compaixão é um atributo de Deus e ele nos criou com a mesma
capacidade. Pessoas destituídas de compaixão são as mais dignas de pena. As
parteiras tiveram compaixão de Moisés (Ex 2.6). Neste caso significa que
elas pouparam a sua vida.
Solidariedade
A
identificação e a compaixão devem nos mover a um ato de solidariedade. Nós
nos solidarizamos com a dor do outro. Aquela dor não é abstrata, ela é
gerada de uma situação concreta e é nosso dever cristão perguntar: "O que eu
posso fazer para ajudar você?" O cristianismo é a religião para outro e
quando ele passa a ser a minha religião particular, privatizada, ele perde a
sua essência e a sua beleza. O cristianismo somente sobrevive quando ele é
dado, compartilhado. A fé em ação multiplica bênçãos e produz mais fé ainda.
Estilo de Vida Simples
Uma
segunda implicação da MI é que precisamos refletir sobre o nosso estilo de
vida. Devemos reconhecer que temos sido profundamente impactado e modelado
pelo conceito do mundo sobre como deve ser a vida. Somos atropelados por uma
propaganda massiva sobre o que devemos comer, vestir, morar, passear. Estar
fora destes padrões é estar, literalmente, por fora.
Nossos
jovens e adolescentes estão em rápido processo de falência quanto a
identidade que eles devem assumir. Eles recebem uma educação em casa, outra
na igreja, outra na escola e outra com os amigos. Eles não possuem pontos de
referência. Os modelos da nossa juventude são modelos glamourizados
pela televisão, filmes e novelas. Como incutir uma mentalidade de
simplicidade de vida se o charme está em fumar Marlboro, dirigir um Jeep
Cherokee e praticar alpinismo?
A
Bíblia nos mostra outros tipos de heróis e heroínas. Pessoas que haviam
aprendido a viver de maneira muito simples. Vejamos alguns destes exemplos:
Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os
necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais
bem-aventurado é dar que receber
(At 20.35).
Apóstolo Paulo afirma: porque aprendi a viver contente em toda e
qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de
tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura
como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que
me fortalece (Fp 4.11-13).
Praticar as Demandas do Evangelho
O
evangelho que nos foi confiado na tradição dos apóstolos traz uma demanda
muito dura. Se alguém acha difícil as demandas dos dez mandamentos é porque
ainda não leu atentamente as demandas que Cristo fez nas páginas dos
evangelhos.
Ele
resumiu o seu evangelho em basicamente duas colocações:
- Amar
a Deus acima de todas as coisas
- Amar ao outro como se ama a Deus
Se isto
estiver acontecendo continuadamente no meio da igreja, ela produzirá
cristãos autênticos, comprometidos com a vida e com o reino de Deus. Esta
igreja será sinal visível da presença redentora de Cristo no mundo.
IV.
Os Desafios da Missão Integral
1. Nas
mudanças rápidas impostas pela modernidade e pós-modernidade, a igreja dever
ser o elo de ligação entre as pessoas.
2. Numa
época impregnada pelo relativismo a igreja deve manter o conteúdo do
evangelho.
3. Num
período em que o que mais se leva em consideração é a experiência de cada
um, a igreja deve lutar para manter vivo na memória da sociedade os
conceitos eternos do evangelho.
4.
Quando a privatização da religião torna uma realidade, a igreja não deve
permitir que os ensinos de Cristo torne-se apenas uma das muitas opções
presentes no mercado religioso.
5. Em
uma época de consumismo desenfreado e pecaminoso, a igreja deve exercer
domínio próprio, acentuar as prioridades do reino de Deus e ser padrão de
conduta exemplar.
6.
Enquanto o individualismo é levado ao extremo pela sociedade, a igreja
valoriza a vida do outro através do serviço cristão, pois nada é mais
poderoso do que o serviço abnegado em favor do outro.
7.
Alguns outros desafios perenes na igreja evangélica:
- O
problema do nominalismo
- O problema do materialismo
- O problema da fragmentação
- O problema do pluralismo
Conclusão
A
pergunta que temos que fazer neste quase início de século é se a igreja como
nós a conhecemos hoje será necessária na nova sociedade que está sendo
construída.
Podemos
afirmar que certamente a igreja institucionalizada está se tornando cada vez
mais um mercado e que, portanto, atrai as pessoas com características
consumistas. Pessoas que estão buscando, assim como num mercado, coisas
específicas. E assim com num mercado, se elas encontram o que procuram,
permanecem, caso contrário, vão procurar em outro lugar.
Algumas
perguntas que talvez nem saibamos as respostas:
Para
que afinal serve mesmo a igreja?
As
pessoas estão dispostas a serem tratadas e curadas?
Quanto
tempo alguém está disposto a conceder para ser tratado integralmente?
A
igreja é comunidade terapêutica ou filantrópica? Ou ambas as coisas?
Existe
espaço na igreja para compartilhar as aflições da alma e as dores do
coração?
Missão
Integral e crescimento de igreja podem caminhar juntos?
Albert
Schweitzer afirmou: "A tragédia do homem é o que morre dentro dele
enquanto ele ainda está vivo". Poderíamos dizer que a tragédia da igreja
é o que morre dentro dela enquanto ela ainda está viva.
Assim
como foi profetizado o fim da história, será que chegamos ao fim da igreja?
A igreja da Missão Integral está correndo sério risco de extinção. Cabe a
nós, conscientes desta verdade, traduzir as boas novas de uma maneira
significativa para um mundo em sofrimento e desordem.
veja
ainda:
Captação
de Recursos - Alguém consegue algo em algum lugar?
Transparência administrativa, relatórios claros e
profissionais (esqueça as prestações de contas que algum missionário disse
como fazer), isenção plena na conduta. São todos fatores que deveriam ser
mínimos para quem se candidata a captar recursos com quem quer que seja. E
não fiquemos apenas nos relatórios financeiros e administrativos. Se você
prometeu resultados, prove que você os alcançou. Você pegou dinheiro para
distribuir “N” cestas básicas? Prove que distribuiu, de preferencia até com
algum tipo de auditoria. Você pretendia alcançar “X” crianças com seu
projeto? Prove que você o fez. Resultados. Mostre os resultados. Ninguém
quer saber que você se esforçou. O dinheiro não lhe foi dado por seus
esforços, e sim para que, por meio dele e por meio dos seus esforços, os
resultados chegassem
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Carlos Sider
Quem
sabe não foi pra isso...?
... por habitar e
circular entre o mundo empresarial e o ministerial há 26 anos acho que já
aprendí a não me assustar com as anomalias. Aprendí a ver o que há de
excelente em cada lado, e fugir do que há de mau. Aprendi que Deus é
Senhor de ambos, e se ficamos vez por outra surpresos com o que vemos,
jamais veremos Deus surpreendido com o que há. Ele sabe, e segue no
controle de tudo.
A verdade é que Deus nos coloca onde estamos com finalidades que Ele
conhece há muito, e que nos revela aos poucos. Como Ester, talvez eu e
você tenhamos sido plantados em terreno específico, e mesmo que não
consigamos ver ‘quais podem ser as intenções de Deus’, Ele as tem, por
certo.
Enfim, temos nossas lições de casa. E é justamente para uma
delas que eu quero agora lhe chamar a atenção. “Quem sabe não foi pra isso
que Deus lhe colocou onde colocou?”
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Carlos Sider
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